Um relatório "ficção científica" derrubou a bolsa e assustou a Casa Branca.
Mas e se o futuro imaginado para 2028 já tiver começado? Entenda por que a "epidemia" de IA pode não criar um mundo de lazer, mas sim um colapso silencioso e matematicamente inevitável.
No último fim de semana, o mercado financeiro global tremeu. O estopim não foi uma guerra, um escândalo político ou uma pandemia real, mas sim um documento de 20 páginas escrito por uma empresa de investimentos quase anônima chamada Citrini Research. O relatório, imaginando um cenário em 2028, foi tratado como "ficção científica" pela Casa Branca, mas a reação do mercado de ações foi assustadoramente real: o Dow Jones despencou mais de 800 pontos, gigantes como a IBM sofreram suas piores quedas em décadas, e o pânico se instalou.
Mas vamos parar por um momento. Ignoremos os gráficos e os números da bolsa. O que realmente assustou o mercado não foi um algoritmo quebrado, mas uma ideia simples, cruel e, acima de tudo, crível: a IA não vai apenas otimizar o trabalho; ela vai eliminar o consumidor.
A tese central do relatório, cunhada como "espiral de aglomeração intelectual", é o oposto do que as grandes consultorias de tecnologia vendem. Elas pregam um futuro de eficiência e prosperidade. A Citrini pinta um quadro onde a eficiência é o veneno.
Imagine o seguinte: agentes de IA substituem não apenas operários de fábrica, mas sim o exército de colarinho branco. Analistas financeiros, advogados iniciantes, redatores, designers, atendentes, tradutores. Milhões de pessoas com alto poder de compra, formadoras de opinião e ávidas consumistas, são abruptamente desconectadas da renda.
O que acontece? O aluguel continua subindo. O preço do iFood, também. Mas o salário (para quem ainda tem) estagna ou cai, e para quem perdeu o emprego, simplesmente desaparece. O consumo desaba. A economia, que nos EUA e no Brasil é movida a gasto, entra em parafuso.
É aqui que a história fica realmente interessante. A bolsa de valores, alimentada pelo hype da própria IA, continua subindo por um tempo. As big techs lucram como nunca vendendo automação. Mas embaixo, a base da pirâmide econômica (o consumidor de classe média) está sendo erodida. Quando a base cede, o arranha-céu desaba. As ações despencam não por falta de inovação, mas por falta de gente com dinheiro para comprar os produtos das empresas inovadoras.
Se você trabalha com finanças ou administração, conhece a máxima: "Uma empresa que não cresce, morre". Mas o que acontece quando a sociedade atinge um platô de eficiência onde a máquina substitui o homem?
Nós construímos uma civilização onde o valor das empresas (suas ações) depende do consumo humano. Se retiramos o ser humano da equação do trabalho para baratear custos, retiramos, em contrapartida, o ser humano da equação do consumo. As empresas passam a vender para quem? Para outras empresas que também estão demitindo? Para robôs?
O economista-chefe da Casa Branca, Pierre Yared, chamou o relatório de violação dos fundamentos da economia, alegando que a IA aumenta a produtividade. Mas ele esbarra no dilema keynesiano mais básico: a demanda efetiva. De que adianta produzir infinitamente se não há massa de trabalhadores com renda para adquirir essa produção? A produtividade sem distribuição de renda é uma bomba-relógio.
Kristalina Georgieva, do FMI, alertou que 60% dos empregos em países avançados estão na mira da IA. No Brasil, esse número é menor em termos percentuais (cerca de 40%), mas o impacto social pode ser muito pior.
Por quê? Porque aqui, a desigualdade já é um abismo. O trabalhador de colarinho branco brasileiro (o analista, o advogado, o gestor de redes sociais) ainda sustenta famílias inteiras. É o famoso "profissional que paga a escola, o plano de saúde e a faculdade dos filhos". Se essa camada for comprimida pela automação, não teremos um sistema de segurança social robusto para amortecer a queda. Não haverá "renda básica da IA" da noite para o dia.
Além disso, o Brasil é um país de serviços. Somos uma nação que vende atendimento, vende expertise e vende trabalho humano. Se a inteligência artificial desvalorizar esse trabalho, o que nos resta? A "commoditização" do pensamento. O conhecimento, que antes era seu diferencial, se torna um recurso abundante e barato, gerido por algumas poucas empresas donas dos servidores.
Sam Altman, o criador do ChatGPT, deu uma declaração polêmica ao dizer que muitos empregos que desaparecerão "não eram trabalho real de verdade". É uma visão cruel, mas carregada de uma verdade inconveniente: estamos acostumados a "parecer ocupados" em vez de "gerar valor real".
Mas a transição para esse novo mundo é o verdadeiro desafio. Não se pode simplesmente desligar a classe média e dizer "se virem". A história nos ensina que quando a massa perde a esperança e a renda, regimes mudam, ruas pegam fogo e economias se fragmentam.
O que a Citrini fez, ao publicar esse "relatório do futuro", foi nos lembrar de um princípio que o Vale do Silício adora esquecer: a economia não é só oferta, é demanda. E a demanda ainda tem rosto, nome e, principalmente, contracheque.
Enquanto a Casa Branca chama isso de ficção, o mercado já precifica o medo. Resta saber se nossos governantes e CEOs terão a sabedoria de taxar os lucros extraordinários da IA, como sugeriu Alap Shah, coautor do relatório, para financiar o recomeço daqueles que forem substituídos, ou se vamos permitir que a inteligência artificial cumpra seu destino mais sombrio: criar um mundo de eficiência absoluta, habitado apenas pela miséria humana.
A "epidemia" da IA não é sobre robôs assassinos. É sobre contas a pagar que não serão pagas. E essa é uma ameaça muito mais real e assustadora.