O Apagão das Máquinas: Como a Inteligência Artificial Pode Derreter a Economia (e Ninguém Está Preparado)

Publicado por: Feed News
26/02/2026 19:48:16
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O novo normal? Escritórios hipermodernos, funcionários obsoletos.
O novo normal? Escritórios hipermodernos, funcionários obsoletos.

Um relatório "ficção científica" derrubou a bolsa e assustou a Casa Branca.

Mas e se o futuro imaginado para 2028 já tiver começado? Entenda por que a "epidemia" de IA pode não criar um mundo de lazer, mas sim um colapso silencioso e matematicamente inevitável.

 

No último fim de semana, o mercado financeiro global tremeu. O estopim não foi uma guerra, um escândalo político ou uma pandemia real, mas sim um documento de 20 páginas escrito por uma empresa de investimentos quase anônima chamada Citrini Research. O relatório, imaginando um cenário em 2028, foi tratado como "ficção científica" pela Casa Branca, mas a reação do mercado de ações foi assustadoramente real: o Dow Jones despencou mais de 800 pontos, gigantes como a IBM sofreram suas piores quedas em décadas, e o pânico se instalou.

 

Mas vamos parar por um momento. Ignoremos os gráficos e os números da bolsa. O que realmente assustou o mercado não foi um algoritmo quebrado, mas uma ideia simples, cruel e, acima de tudo, crível: a IA não vai apenas otimizar o trabalho; ela vai eliminar o consumidor.

 

A "Espiral da Aglomeração Intelectual"

A tese central do relatório, cunhada como "espiral de aglomeração intelectual", é o oposto do que as grandes consultorias de tecnologia vendem. Elas pregam um futuro de eficiência e prosperidade. A Citrini pinta um quadro onde a eficiência é o veneno.

 

Imagine o seguinte: agentes de IA substituem não apenas operários de fábrica, mas sim o exército de colarinho branco. Analistas financeiros, advogados iniciantes, redatores, designers, atendentes, tradutores. Milhões de pessoas com alto poder de compra, formadoras de opinião e ávidas consumistas, são abruptamente desconectadas da renda.

 

O que acontece? O aluguel continua subindo. O preço do iFood, também. Mas o salário (para quem ainda tem) estagna ou cai, e para quem perdeu o emprego, simplesmente desaparece. O consumo desaba. A economia, que nos EUA e no Brasil é movida a gasto, entra em parafuso.

 

É aqui que a história fica realmente interessante. A bolsa de valores, alimentada pelo hype da própria IA, continua subindo por um tempo. As big techs lucram como nunca vendendo automação. Mas embaixo, a base da pirâmide econômica (o consumidor de classe média) está sendo erodida. Quando a base cede, o arranha-céu desaba. As ações despencam não por falta de inovação, mas por falta de gente com dinheiro para comprar os produtos das empresas inovadoras.

 

O Paradoxo do Lucro

Se você trabalha com finanças ou administração, conhece a máxima: "Uma empresa que não cresce, morre". Mas o que acontece quando a sociedade atinge um platô de eficiência onde a máquina substitui o homem?

 

Nós construímos uma civilização onde o valor das empresas (suas ações) depende do consumo humano. Se retiramos o ser humano da equação do trabalho para baratear custos, retiramos, em contrapartida, o ser humano da equação do consumo. As empresas passam a vender para quem? Para outras empresas que também estão demitindo? Para robôs?

 

O economista-chefe da Casa Branca, Pierre Yared, chamou o relatório de violação dos fundamentos da economia, alegando que a IA aumenta a produtividade. Mas ele esbarra no dilema keynesiano mais básico: a demanda efetiva. De que adianta produzir infinitamente se não há massa de trabalhadores com renda para adquirir essa produção? A produtividade sem distribuição de renda é uma bomba-relógio.

 

O Brasil na Mira do Tsunami

Kristalina Georgieva, do FMI, alertou que 60% dos empregos em países avançados estão na mira da IA. No Brasil, esse número é menor em termos percentuais (cerca de 40%), mas o impacto social pode ser muito pior.

 

Por quê? Porque aqui, a desigualdade já é um abismo. O trabalhador de colarinho branco brasileiro (o analista, o advogado, o gestor de redes sociais) ainda sustenta famílias inteiras. É o famoso "profissional que paga a escola, o plano de saúde e a faculdade dos filhos". Se essa camada for comprimida pela automação, não teremos um sistema de segurança social robusto para amortecer a queda. Não haverá "renda básica da IA" da noite para o dia.

 

Além disso, o Brasil é um país de serviços. Somos uma nação que vende atendimento, vende expertise e vende trabalho humano. Se a inteligência artificial desvalorizar esse trabalho, o que nos resta? A "commoditização" do pensamento. O conhecimento, que antes era seu diferencial, se torna um recurso abundante e barato, gerido por algumas poucas empresas donas dos servidores.

 

A Saída (ou a Fuga)

Sam Altman, o criador do ChatGPT, deu uma declaração polêmica ao dizer que muitos empregos que desaparecerão "não eram trabalho real de verdade". É uma visão cruel, mas carregada de uma verdade inconveniente: estamos acostumados a "parecer ocupados" em vez de "gerar valor real".

 

Mas a transição para esse novo mundo é o verdadeiro desafio. Não se pode simplesmente desligar a classe média e dizer "se virem". A história nos ensina que quando a massa perde a esperança e a renda, regimes mudam, ruas pegam fogo e economias se fragmentam.

 

O que a Citrini fez, ao publicar esse "relatório do futuro", foi nos lembrar de um princípio que o Vale do Silício adora esquecer: a economia não é só oferta, é demanda. E a demanda ainda tem rosto, nome e, principalmente, contracheque.

 

Enquanto a Casa Branca chama isso de ficção, o mercado já precifica o medo. Resta saber se nossos governantes e CEOs terão a sabedoria de taxar os lucros extraordinários da IA, como sugeriu Alap Shah, coautor do relatório, para financiar o recomeço daqueles que forem substituídos, ou se vamos permitir que a inteligência artificial cumpra seu destino mais sombrio: criar um mundo de eficiência absoluta, habitado apenas pela miséria humana.

 

A "epidemia" da IA não é sobre robôs assassinos. É sobre contas a pagar que não serão pagas. E essa é uma ameaça muito mais real e assustadora.

 

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