Pequeno território britânico no Caribe faturou US$ 93 milhões em 2025 só com vendas de domínios .ai — mais de 47% do orçamento público. Entenda como uma sigla de duas letras virou máquina de dinheiro.
Enquanto o mundo discutia se o ChatGPT ia roubar empregos ou criar novos, uma ilha de 15 mil habitantes no meio do Caribe descobriu, sem querer, uma das minas de ouro mais improváveis da era digital. O nome dela é Anguila. O produto? Duas letrinhas: .ai.
Parece piada, mas não é. O mesmo sufixo que virou sinônimo de inteligência artificial (AI, em inglês) é, na verdade, o código de país da internet para esse território britânico ultramarino. E o que era uma coincidência burocrática dos anos 1980 virou, décadas depois, a maior fonte de receita da ilha — superando lagosta, turismo e até serviços financeiros offshore.
Quando a internet começou a ser organizada nos anos 80, cada país ou território ganhou um domínio de topo próprio. Anguila ficou com .ai (de Anguilla Island). Por décadas, isso não significou absolutamente nada. A ilha vivia de praias paradisíacas, pesca de lagosta e da fama de paraíso fiscal.
Até que, no fim de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT. O mundo enlouqueceu pela IA. E, de repente, qualquer startup, gigante da tecnologia ou aventureiro digital queria um endereço curto, charmoso e com significado: .ai.
Empresas começaram a pagar fortunas para registrar sites nessa extensão. O custo básico de um domínio .ai gira em torno de US$ 150, mas nomes premium vão a leilão. Só para você ter ideia:
you.ai foi vendido por US$ 700 mil em 2025
bot.ai bateu US$ 1,2 milhão
cloud.ai saiu por US$ 600 mil
E não, não há nenhum data center de última geração em Anguila. Não há um polo de inovação em IA na ilha. A única infraestrutura é o direito de vender o domínio. É o equivalente digital a ter um terreno na melhor localização do mundo sem precisar construir nada.
A virada de chave foi tão rápida quanto o hype da IA. Em números:
2020: menos de 50 mil domínios .ai registrados
2022: 100 mil (ano do lançamento do ChatGPT)
2025: mais de 850 mil
Maio de 2026: ultrapassou 1,2 milhão de endereços .ai, crescendo milhares por dia
E isso se refletiu no bolso da ilha:
| Ano | Receita com .ai |
|---|---|
| 2022 | US$ 7,7 milhões |
| 2024 | US$ 39 milhões |
| 2025 | US$ 93 milhões |
Em 2025, a venda de domínios respondeu por 47% do orçamento total de Anguila. O PIB da ilha, que era de US 456 milhões em 2024.
Até então, a economia de Anguila dependia fortemente do turismo — 37% da arrecadação em 2024. Mas todo outono a região é castigada por furacões, que afastam visitantes e destroem infraestrutura. Por isso, o dinheiro vindo do .ai não é apenas um bônus: é uma tábua de salvação para diversificar a economia, como reconheceu até o FMI.
Com a grana extra, o governo local investiu em:
ampliação do aeroporto
recuperação de estradas
melhoria da saúde pública
programas de educação digital
ampliação do acesso à internet
A primeira-ministra Cora Richardson-Hodge comemorou em janeiro de 2026 a marca de 1 milhão de domínios ativos:
"Essa marca mostra como ativos digitais podem trazer benefícios reais para comunidades locais."
Mas há um risco no paraíso. Anguila aprendeu com o erro de Tuvalu, uma pequena nação do Pacífico que ganhou o domínio .tv nos anos 90. Com a explosão da TV online e plataformas como Twitch.tv, Tuvalu tinha uma máquina de dinheiro nas mãos. Só que, em 1998, vendeu os direitos de exploração do .tv para a americana VeriSign por apenas US 5 milhões).
Resumo da ópera: Tuvalu ficou com migalhas enquanto a VeriSign lucrou rios.
Para não repetir o mesmo erro, Anguila firmou em 2024 um contrato de cinco anos com a Identity Digital, empresa especializada em registro de domínios. Ela fica com 10% da receita; os outros 90% vão direto para os cofres públicos da ilha. Controle, transparência e, acima de tudo, soberania sobre o próprio ouro digital.
Anguila e Tuvalu não são casos isolados. O que há de comum entre Líbia, Montenegro e Colômbia? Todos lucram com domínios inusitados.
Líbia (.ly): vive em guerra civil, mas controla domínios usados por serviços como bit.ly (encurtador de links). Cada registro gera receita para o país.
Montenegro (.me): o pequeno país dos Bálcãs vende domínios pessoais como se fossem “marca própria”. Antes de 2015, já faturava mais de US$ 300 milhões por ano com .me — mais de 2% de todas as suas exportações.
Colômbia (.co): por ser parecido com .com, virou alternativa popular. A Amazon usa .co, e o Google criou o encurtador g.co.
O Brasil tem seu próprio domínio de país — .br — gerido pelo NIC.br. Não há coincidência de sigla com nenhum hype tecnológico como .ai ou .tv. Mas a lição de Anguila serve para qualquer um: ativos digitais de países podem valer fortunas inesperadas décadas depois. E a gestão inteligente (e soberana) desses ativos transforma pequenas economias.
Para empreendedores brasileiros, a mensagem é clara: o valor de um domínio não está apenas no que ele é hoje, mas no que ele pode significar amanhã. Se você tem um bom domínio guardado, talvez seja hora de repensar seu valor.
Anguila deu sorte? Sim. Mas também aprendeu com os erros alheios e fez escolhas inteligentes. O boom da IA pode desacelerar, mas os domínios já registrados continuam gerando receita anual de renovação. A ilha não vai ficar milionária para sempre no mesmo ritmo, mas construiu uma base sólida para o futuro.
Enquanto isso, o mundo continua comprando .ai como quem compra ouro no século XXI. E uma ilha de 15 mil pessoas, que antes vivia de lagosta e sol, agora fatura mais com código do que com coqueiro.